terça-feira, 22 de março de 2011

Depois do Fim

Sempre gostei de pensar que a morte não seria o fim, mas sim um novo princípio. Talvez seja por isso que matei — direta ou indiretamente — tantos homens ao longo da minha vida sem sentir muito remorso. Não estou querendo dizer que não o senti, claro que o senti, mas não o bastante, acho. Não sei se fui punido como merecia, mas acho que sim. Provavelmente sim.

Apesar dos meus erros, e não foram poucos, acredito ter levado uma boa vida. Casei-me (não de papel passado) com a melhor mulher que já existiu e a fiz feliz por todos os anos em que passamos juntos. Nunca tivemos filhos, porque não achamos importante tê-los. Freqüentemente um casal resolve gerar uma criança quando o casamento já não está lá essas coisas, então aquela nova vida traz alguma luz para as outras duas já um pouco apagadas. Nós, minha esposa e eu, nunca precisamos disso. Já éramos completos sem mais ninguém. Nunca olhei para outra mulher desde que a conheci, e tenho certeza de que ela também não se interessou por nenhum outro homem. Nunca precisamos ter amigos, também. Nada de jogos de carta aos domingos, jantares um dia na casa de cada um, etc. Foi sempre ela, eu e mais ninguém.

Eu era uma espécie de mercenário a serviço da ditadura militar brasileira. Não era militar, tampouco civil. Alguns me chamavam até de fantasma. Para o meu tipo de trabalho talvez eu precisasse mesmo ser um. Talvez eu fosse. Desde que completei 29 anos, meu nome foi apagado de qualquer documento: como se eu tivesse morrido só que sem atestado de óbito — morri para o sistema.

Eu recebia ordens diretamente do alto comando, e as coisas que me mandavam fazer jamais apareceram em qualquer jornal. A verdade é que a ditadura fui um poço de podridão. As coisas que são conhecidas hoje não são nem um terço do que realmente aconteceu. Poucos jornalistas chegaram perto de descobrir algo realmente podre, como alguns assassinatos em massa incluindo mulheres e crianças, e os que chegaram morreram antes de poder contar.

Quando me recrutaram disseram que toda e qualquer missão designada a mim, seria para contribuir com o progresso do país. A verdade é que eu estava cagando para o progresso. Só o dinheiro me importava e eu ganhei muito. Dinheiro que eu não gastaria nem que vivesse trezentos anos.

Entre tantas coisas que fiz a mando do governo, apenas uma não me saiu da cabeça. Foi uma missão simples se comparada a tantas outras, mas me marcou para sempre.

Recebi ordens para matar um anarquista. Um cara, daquele tipo cheio de sonhos e ideais, que se acha intocável se estiver com a razão ao seu lado. Pobre coitado. Ele era um peixe pequeno, mas pisara em alguns calos que não deveria ter pisado, então me mandaram resolver o assunto. Serviço fácil.

Ele morava num prédio de apartamentos duma ruazinha secundária do centro, daquelas em que o movimento morre num domingo à tarde. Um dos meus homens estava de tocaia desde a madrugada de sábado, enquanto eu esperava num bar próximo, bebendo um café atrás do outro. Foi perto das seis da manhã que o dono do bar, sem saber que seria um pouco cúmplice do crime, perguntou se meu nome era Dagoberto (falso, é claro). Eu disse que sim e ele me passou o telefone. Era o meu homem, me informando que o alvo chegara em casa de porre. O trabalho dele estava concluído, e então começava o meu.

Fui até o prédio da futura vitima e me defrontei com um porteiro gordo, de cabelos oleosos e uma mancha de gordura na camisa. Dava para ver no seu olhar que venderia a própria mãe por alguns trocados. Bem, eu não lhe dei alguns trocados, mas uma quantia maior que do que ele ganharia em um ano de trabalho. Ele pegou sem pestanejar e deu o fora dali com um sorriso de orelha a orelha. O resto seria brincadeira.

O saguão de entrada era apertado. Um papel de parede verde-desbotado cobria as paredes junto com algumas manchas de mofo. À direita havia um conjunto de armários de latão, para correspondências. À esquerda ficava a porta do elevador com a clássica plaquinha de aviso, comum aos elevadores da época: “ATENÇÃO: Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.” À frente ficavam as escadas, e foi por elas que subi. A cada lance de doze degraus, havia uma curva para a esquerda, depois mais doze, e o andar seguinte. Segui assim até chegar ao sétimo andar. O corredor estava vazio e estaria completamente silencioso não fosse o ruído constante duma lâmpada com defeito que piscava ao fundo. Tomei à direita e fui até a porta número 76.

A maçaneta era daquelas que abriam só de olhar. Aguardei alguns instantes para certificar-me que o interior estava completamente em silêncio. Estava. Abri a porta facilmente com uma chave de fenda, quase sem fazer barulho.

O apartamento estava imerso na penumbra, pois uma cortina escura bloqueava a luz do sol que tentava entrar pela única janela da pequena sala. O lugar era decorado por um papel de parede creme, de mais bom gosto que o verde-desbotado do restante do prédio, mas igualmente com manchas de mofo, o que recendia um leve cheiro de umidade no ar. Uma mesa de centro com algumas revistas e jornais velhos, e uma estante com livros amarelados era o que basicamente havia de móveis ali. À direita ficava uma porta entreaberta que julguei dar acesso ao banheiro devido aos azulejos que eu enxergava de onde estava. Na outra extremidade uma porta fechada, e no centro outra porta entreaberta. Fui em direção a esta, deslizando sorrateiramente.

O casal dormia pesado, mas provavelmente haviam brigado, pois a mulher deitara em uma ponta o mais afastado que podia do marido que há pouco chegara bêbado. Por um momento invejei aquele homem. Pensei que se pudesse escolher como morrer, talvez escolhesse daquele jeito: bêbado e dormindo.

Apaguei aquilo da mente e tratei de concluir meu trabalho. Enterrei minha faca na garganta do homem e a deslizei um pouco para o lado. Retirei-a rapidamente e um guincho de sangue tingiu o lençol enquanto as pernas da vitima davam seus últimos espasmos; e um grunhido surdo morria antes de nascer em sua boca. A mulher teve um fim semelhante, e morreu antes de perceber alguma coisa.

Sorri com satisfação pelo trabalho bem feito, já pensando em que gastaria o dinheiro ganho com ele, mas quando voltei-me em direção à porta do quarto, vi aquilo que me marcaria para sempre: uma garotinha de talvez quatro anos, estagnada a dois metros de mim, com seus longos cabelos escuros caindo pelo pijama branco, o urso de pelúcia pendendo da mão direita, e os olhos azuis muito vivos fitando-me sem expressão. Algum tempo se passou enquanto eu a olhava e ela a mim. Não sei se foram apenas poucos segundos, mas me pareceram horas; horas em que me perdi na profundidade azulada daquele olhar sem expressão que parecia sentir pena de mim, ao invés de medo.

Foi quando recobrei meus sentidos, relembrando o treinamento que me ensinara a abandonar o local do assassinato o mais breve possível, sem deixar testemunhas. SEM DEIXAR TESTEMUNHAS! , gritava uma voz em minha mente a ponto de, de alguma forma, estourar os tímpanos.

Os três passos que dei em direção à menina foram os mais difíceis da minha vida. Meus dedos apertavam com firmeza a faca que já tirara tantas vidas, ainda pingando sangue, prestes a tirar mais uma. Contemplei naqueles olhos inocentes o reflexo da lâmina, já pressentindo como seria a pele macia e límpida se partindo como manteiga, mas... minhas pernas fraquejaram. Um assassino calejado vencido pelo olhar corajoso e misericordioso de uma criança. Pela primeira vez eu falhara. O que consegui fazer foi acariciar levemente o cabelo da menina e sair correndo dali para só parar nas escadas a tempo de vomitar todo o café que bebera naquela noite.

Na rua encontrei um telefone público, de onde avisei a polícia sobre o crime. O último que cometeria. Eu havia me aposentado, mas aquele par de olhos azuis me perseguiria para sempre.

Depois daquilo levei uma vida tranqüila com minha esposa em uma fazenda no interior. Vivemos felizes até que, já bastante idoso, um derrame me deixou mudo e tirou-me praticamente todos os movimentos do corpo. Ainda vivi por vários anos daquela forma: pregado a uma cadeira de rodas, de onde minha amada tirava-me para eu ir para cama ou quando precisava fazer minhas necessidades. Felizmente eu não precisava de palavras para explicar a ela o que eu queria. Um olhar bastava. Ela cantava para mim quase todas as noites, alisando minhas mãos mortas sem que eu pudesse a sentir.

Numa tarde, dirigi-lhe um de meus olhares e ela sorriu, entendendo. Empurrou-me na cadeira de rodas até a entrada do banheiro, e deixou-me ali, enquanto enchia um copo d’água na pia. Tossi alto de repente, e minha amada, ao voltar-se para me olhar, deixou suas frágeis pernas escorregarem no azulejo úmido. A cabeça bateu de encontro à privada e quebrou-se como o copo no chão. Gritei de dor a plenos pulmões, mas não havia voz para deixar a garganta. Tentei desesperadamente me mover, fazer qualquer coisa, mas meu corpo já morrera há muito. Agora a alma também partira.

Demorou alguns dias até que eu morresse. Acho que mais do que deveria demorar, considerando meu estado de saúde precário. Foi o meu castigo por ter feito tantas coisas horríveis: morrer vagarosamente assistindo a água gélida correr da torneira, encharcando minha amada e levando o filete de seu sangue a meus pés.

Sempre gostei de pensar que a morte não seria o fim, mas sim um novo princípio. Mas quando morri não vi nada. Nenhum recomeço; nenhum inferno; nenhum paraíso; nem mesmo aqueles grandes olhos azuis que perseguiram durante tanto tempo: somente escuridão.

domingo, 20 de março de 2011

Selo de Qualidade "Caderneta Azul"


Ganhei o selo de qualidade do Blog Caderneta Azul, por indicação do amigo Raylson Bruno. A idéia do selo é, quem recebê-lo, responder algumas perguntas e indicar outros blogs que ache que mereçam ganhar o selo.
Aqui vai as perguntas:

Nome: Gustavo Pierobom
Uma música: Recuerdos da 28, do Joca Martins (Música tradicionalista Gaúcha)
Humor: Depende do momento.
Uma cor: Preto
Estação: Inverno
Como prefere viajar: De carro
Um lugar: Minha casa
Um filme: Os Imperdoáveis
Um livro: A sombra do Vento do Carlos Ruiz Zafón (mas poderia citar outros)
Um prazer: Ler, escrever, pescar, jogar bola, conversar, sexo, um bom filme (não necessariamente nesta ordem)
Um seriado: House
Time do coração: GRÊMIO!
Frase mais dita por você: Porra, mas tu é chato(a)!
Porque tem um blog: Para divulgar meus escritos.
Sobre o que você escreve: De tudo um pouco, desde crônicas humorísticas, contos de suspense, drama, detetive, faroeste, etc. Pretendo escrever um romance sobre a Revolução Farroupilha.
Escreva a primeira coisa que vier a cabeça: Sei lá.
O que achou do selo: Legal, a iniciativa foi boa. O Caderneta Azul está de parabéns.

Aqui vai os blogues que eu indico para receber o selo:


Se não fosse injusto eu indicaria meus outros blogues, hêhê.



sábado, 19 de março de 2011

Obama e o Velho Surdo

A filha solteirona foi até a sala, onde seu velho e surdo pai assistia a um filme com a televisão a todo volume.

— Papai! — berrou. — Estou aqui no quarto usando a internet, vou acompanhar a visita do Obama.

— A camionete do IBAMA? — alarmou-se o velho. — Meu Deus! Vou esconder meus canarinhos!

— Não pai, o “Ôbama”, presidente dos Estados Unidos.

— Ah bom.

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“Que a luz do progresso sempre brilhe nesta nação” disse o presidente dos Estados Unidos, citando Juscelino Kubitscheck, ex-presidente brasileiro e idealizador da nossa capital federal.

Que a luz do progresso “do meu país” sempre brilhe nesta nação, Obama poderia ter acrescentado à citação de JK que certamente um de seus assessores procurou no Google para que seu presidente parecesse simpático ao relembrá-la na presença da Dilma. Ora, que outro interesse teria o homem mais poderoso do mundo (ou não, pois há um certo chinesinho tomando conta do pedaço) numa visita ao Brasil se não, conseguir com que a balança do mercado internacional penda ainda mais para o lado americano?

Obama diz que vê no Brasil um mercado em crescimento que pode ser explorado pela indústria norte-americana e que propõe uma parceria “verde” entre os dois governos para gerar energia limpa e renovável. Bem, eu não sei o que ele quis dizer com “verde”, mas a Amazônia é verde, por exemplo.

Os principais objetivos de Obama, em sua visita ao Brasil, são para reforçar a cooperação dos dois países nas questões de infraestrutura, de educação e de energia. O que interessa à Obama a educação brasileira? Algo do tipo: “Estudem e venham trabalhar no meu país”? A infraestrutura seria para quando os americanos viessem num futuro próximo se apossar — por bem ou por mal — dos nossos minerais.

“Muitos dizem que o Brasil é o país do futuro. Então o futuro chegou.” Quem são estes muitos? Eu pelo menos nunca ouvi ninguém citar isso. Num país de saúde e educação precárias, onde muitas crianças têm de enfrentar uma viagem de várias horas em plena madrugada para chegarem a tempo numa escola que não oferece o mínimo de condições para um aprendizado decente; Onde, em determinadas regiões que por vezes não possuem nem energia elétrica, parteiras trazem bebês à vida sobre uma mesa empoeirada de um engenho, enquanto, nas grandes cidades, a população de baixa renda acotovela-se em filas esperando por atendimento nos hospitais. Bem, se o Brasil é o país do futuro, então acho que o futuro não será muito promissor.

O Homem também comentou que o Brasil é uma das mais perfeitas democracias do mundo. Heim? Ele deve ter esquecido (ou não sabe, o coitado) que os políticos eleitos pelo povo metem a mão na cumbuca desviando dinheiro dos cofres públicos, e, mesmo quando são pegos com a mão na massa, ainda ocorrem incontáveis votações de outros sem-vergonhas para decidir se o gatuno será ou não afastado de seus poderes. Democracia? Concordo. Perfeita? Longe disso.

“Nós queremos ajudar de toda forma possível para que o Brasil possa realizar todo o seu potencial.” O Homem é realmente inteligente. É muito mais fácil iludir um país pacífico com promessas vãs tendo como objetivo final extrair suas riquezas do que gastar milhões por ano com guerras contra povos fanáticos (ou machos, depende do ponto de vista) correndo o risco de receber uma “aviãozada” num de seus cartões postais.

Segundo Obama, o Brasil conseguiu provar que o capitalismo pode existir junto com uma preocupação com justiça social. Cadê a justiça social? Ou melhor, cadê a preocupação?

Talvez seja culpa do povo, como, por exemplo, o caso que aconteceu em Cuiabá há alguns dias, em que o governo ofereceu um curso de costureira a algumas mães de família e uma empresa privada ofereceu trabalho a elas. O objetivo era incentivar essas pessoas a trabalhar para que não dependessem mais de programas como o bolsa escola e o bolsa família, mas, terminado o curso, nenhuma delas apareceu no novo emprego para não perderem o privilégio dos auxílios governamentais. Afinal, para que trabalhar se posso receber parado? E quem paga por isso é a classe trabalhadora, que contribui com sua parte numa das mais altas taxas de impostos do mundo... Pelo menos vamos sediar a copa de 2014.

Se 1984, de George Orwell, fosse ambientado no Brasil, as teletelas só flagrariam determinados sujeitos em atos proibidos, pois seria implementado um filtro que desse liberdade a certos indivíduos esconderem grana na cueca por baixo dos panos. O protagonista poderia faltar ao seu trabalho no órgão público apresentando falsos atestados médicos. O ministério da guerra seria administrado pelos policiais militares que revendem as drogas apreendidas dos traficantes. As rações de chocolate e gim seriam distribuídas em doses desiguais, favorecendo a quem fosse de mais presteza ao governo. O sexo teria como único objetivo gerar crianças é claro, pois, como na obra de Orwell, o amor seria proibido, mas com uma óbvia exceção durante carnaval.

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A filha saiu do quarto e sentou-se ao lado do pai, em frente à televisão.

— Como foi? — perguntou o velho.

— Não sei. Achei seu discurso muito perspicaz, porém contraditório.

— Heim? Ele só quer nossos recursos, nos passar pra trás e o petróleo?

— Mais ou menos isso.

— Minha filha, seu pai é surdo, mas não é burro.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Juventude e a Literatura

A juventude de hoje está mudada, para não dizer perdida. No meu tempo o melhor passatempo que se tinha era um bom jogo de bola no meio da rua ou, talvez, soltar pandorga quando o vento estivesse bom. Para não falar nos banhos de chuva, na caçada de vaga-lumes, e nas intermináveis tardes fazendo bolinhas de sabão com um pedaço de cano e um pouco de detergente. Hoje não se vê um guri com mais de oito anos sem estar com um celular no bolso e um MP3 pendurado no pescoço. Esses dias um amigo meu presenteou o filho com uma bola.

— O que é isso? — perguntou o menino.
— Uma bola.
— Onde que liga?
— Não liga.
— Para que serve, então?
— Como, para que serve? É uma bola! Você chuta, faz embaixadinhas, quebra um vidro com ela...

O menino agradeceu o presente e foi para o quarto jogar vídeo-game.

No que concerne à literatura, é mais ou menos a mesma coisa que se passa. Os poucos adolescentes que vão contra as estatísticas e que ainda se interessam pela leitura, tendem a seguir a moda, lendo livros de qualidade duvidosa, graças à pesada propaganda imposta sobre eles. O pior de tudo é que alguns desses adolescentes se aventuram a iniciar uma carreira literária, tendo como base dois ou três desses “livros da moda”, e acabam por tornarem-se meros plagiadores das suas idéias medíocres. O resultado são textos de qualidade ainda inferior (se possível for) às suas fontes de inspiração.

Felizmente há exceções.

* * *

Era o dia anterior ao seu aniversário de doze anos e Marcolino pedira para sua mãe um livro de presente. O único que lera na sua curta existência fora Olhai os Lírios do Campo de Érico Veríssimo, livro este que furtara de um sebo. Claro que sua mãe não podia ficar sabendo do crime, mas isso não o impediu de passar noites intermináveis, à luz de uma lanterna, lendo e relendo aquelas deliciosas páginas. Daí o gosto pela literatura. Mas a verdade é que já estava farto de ler sempre a mesma coisa. Queria algo novo. Tinha fome de conhecimento. Mas tinha que ser algo diferente. Uma coisa nova. Mais emocionante. Então pedira para a mãe um terror ou um suspense.
Agora só aguardava a chegada da mãe com o presente. Seu aniversário seria no dia seguinte, mas o combinado fora que se ele arrumasse a casa, receberia o presente antecipadamente.

Finalmente ela chegou.
Parou à porta e olhou ao redor. A casa brilhava mais que coturno de capitão. Ele cumprira sua parte no trato, agora era a vez dela.

— Aqui seu livro.
— É sobre o que, mãe?
— Não sei direito. É um lançamento. Só sei que umas meninas estavam se estapeando pelos primeiros exemplares. Perguntei a respeito e uma delas me disse ser o melhor. É de vampiros ou algo do tipo.
Animado, Marcolino desembrulhou rapidamente a embalagem de presente e deparou-se com uma linda e reluzente capa negra gravada com letras vermelhas. Alisou-a, saboreando o relevo das letras e o perfume viciante das páginas. Esqueceu-se do mundo à sua volta e mergulhou na leitura.
Vinte páginas depois, descansou o livro sobre a mesinha da sala e foi em direção à porta.

— Aonde você vai, Marcolino? — perguntou a mãe.
— Vou locar o DVD do Blade!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Mau Presságio

Provavelmente o inevitável acontecimento que mais abomina a vida de um pai, é a apresentação do primeiro namorado da filha. Que pai gosta de ver sua preciosa garotinha — aquela que ele embalou, contou histórias, levou para tomar sorvete e revelou o grande segredo por trás do arco-íris — ser tocada pelas mãos sujas de um homem qualquer? Pois ele sabe o que se passa na cabeça de um adolescente que está na idade de fabricar espinhas encerrado no banheiro.
No começo é tudo ilusão: palavras de carinho, o velho e infalível truque de se espreguiçar no cinema para colocar o braço sobre o ombro da menina, os beijinhos comportados no portão e as ligações de horas no meio da noite (o que sempre causa inexplicáveis aumentos na conta telefônica). Mas depois a coisa começa a ficar pesada: aquela mão boba por baixo do sutiã, que vai baixando até a saia, por entre as coxas e, se passar daí, já era.
Pelo menos no tempo do seu Afrânio era assim. Hoje não é necessário mais do que duas ou três cervejas na balada para acabar num 69 no motel.

* * *

O seu Afrânio roia as unhas. Isso só de aperitivo para acompanhar o meio litro de uísque que já bebera. Faltavam poucos minutos para a filha chegar com o primeiro namoradinho em casa. Namoradinho... o facão já estava amolado e o revólver lubrificado para botar o marmanjo para correr caso não gostasse. E não gostaria.
Enfim chegaram. O garoto tinha quatorze anos, ela treze. Sentaram-se no sofá em frente ao seu Afrânio, com um espaço de 45cm de distância um do outro — fazer o que? Norma da casa — ambos muito envergonhados e comportados até demais.
Deu-se início a entrevista: Idade? Telefone? Endereço? Tipo sanguíneo? Como vai no colégio? O que pretende para o futuro? Quando vai ser o casamento? Ah, o seu pai foi militar? Marinha? Pena, servi no exército. Tem um cachorro? Qual o nome dele? E as figurinhas da copa, faltam muitas? Pra que time torce? E acha o Ganso melhor que o Ronaldinho? Fala sério.
A todas as perguntas, por mais assustador que o velho fosse, o garoto tinha uma resposta satisfatória na ponta da língua. A filha com certeza estava orgulhosa, pois tinha certeza que o namorado agradara e até mesmo surpreendera o pai.
No final da visita, despedidas feitas, apertos de mão trocados. A filha, serelepe e ansiosa, dirigiu-se ao pai:

— E então, pai? O que achou dele?
— Não sei, filha, algo me diz que esse garoto não presta.
— Como assim, pai, por que acha isso?
— Sei lá, ele tem uma cara... Não quero mais ver você com esse garoto. Ponto final.
A filha desatou-se a chorar e, entre um soluço e outro, disse:
— Pô, achei que o senhor iria gostar. Ainda mais que ele sonha em ser jogador de futebol. Goleiro. E do seu time, o Flamengo!

domingo, 25 de abril de 2010

O Sonho

Sonhos são coisas curiosas.

A mente costuma nos pregar peças, às vezes. Enfeitiçar-nos, confundir-nos, brincar conosco e plantar diversas armadilhas pelo caminho, como se fossemos ratos de laboratório num labirinto, tentando encontrar o caminho certo. Morder ou não o queijo eletrocutado no fim da linha é questão de pura interpretação.

Aconteceu com o Arnaldo.

Ele sonhara à noite. No sonho, como em todos os sonhos, tudo fora confuso. As coisas estavam completamente embaralhadas em sua cabeça quando acordou. Entre alguns fragmentos de lembranças do sonho estavam: o golaço do Mengão sobre o Vasco na final do campeonato; as preliminares da transa — porque num sonho nunca se chega a consumar o ato — com aquela gostosa do trabalho que nunca lhe dava bola; os quatro primeiros números da loteria acumulada; e a esposa o traindo com seu velho amigo Pedrão. Mas quem é esse Pedrão? Não se lembrava de ter nenhum amigo chamado Pedrão. Nem velho nem novo. Ele logo concluiu que a traição era outra confusão do seu intelecto e que, como a possível transa com a gostosa, não existia. Era irreal.

Mas mesmo assim ficou com a pulga atrás da orelha, matutando os acontecimentos do sonho. E o pior de tudo era que a esposa iria viajar naquela manhã. Ela ficaria uma semana no interior, visitando seus pais. Não. Havia algo errado. Eram demasiadas coincidências para o seu gosto: um sonho de traição, uma viajem de uma semana e um amante chamado Pedrão. Pedrão! Tinha que investigar melhor aquilo.

Deixou a esposa na cama, ainda dormindo, e foi para a cozinha tomar café e ler seu jornal. Tinha preparado a armadilha. Quando ela apareceu, usando um roupão e um cabelo amassado, ele arriscou:

— O Pedrão acabou de ligar.

— Que Pedrão?

Não, não deu certo. Nenhuma reação suspeita, nenhum brilho no olhar. Nada. Apenas um bocejo e um desinteresse tão bem representado que se fosse fingimento ela mereceria um Oscar.

Bem, ela foi viajar. O Arnaldo tentou de todas as maneiras esquecer aquela bobagem, mas foi impossível. Não resistiu. Correu para o Google e encontrou uma firma de detetives particulares que funcionava na pequena cidade para onde a esposa fora. O anúncio dizia o seguinte:

Detetives S/A — Especializada em descobrir relações extraconjugais. Absoluto sigilo e discrição. Sua desgraça é o nosso segredo.

Perfeito. Discou o número e uma voz atendeu do outro lado da linha.

— Pronto.

— Alô, é da Detetives S/A?

— Sim, Detetive Pedrão falando. Em que posso ajudá-lo?

Desligou o telefone e resolveu confiar na esposa. Afinal, foi só um sonho.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O Intervalo Para o Cigarro

Não há coisa melhor do que fumar um cigarro no intervalo do trabalho. Quero dizer, há, mas no momento estou sem namorada e sem dinheiro para pagar por uma. Sabe como é, tem a prestação do carro.

O grande problema é que o patrão, seu Lindomar, quer nos privar desta dádiva que é uma das poucas vantagens que se têm por trabalhar na firma. Além disso, a única outra vantagem é o futebolzinho na sexta feira dos casados contra os solteiros.

Fui chamado à sala do patrão para discutir o assunto.

Seu Lindomar está achando que a fase difícil que a firma atravessa deve-se ao nosso precioso intervalo para o cigarrinho. Tentei explicar a ele que situação não tão boa da firma deve-se aos IPI, IR, IPTU, IRRF, ICMS e tantos outros Is que insistiam em subir. Ele rebateu dizendo que o único I que subia era a saia da Irislene, sua secretária, que era tamanho I de Insignificante. Com aquilo ele quis dizer que o intervalo para o cigarro havia acabado e ponto final. E o pior: fui o incumbido de transmitir a mensagem aos meus colegas.

Saí da sala do patrão cabisbaixo. Parei diante da porta, onde todos da repartição direcionaram olhares esperançosos em minha direção. Fiz o gesto universal do cigarro, levando o dedo médio e o indicador aos lábios, e em seguida bati com palma aberta de uma das mãos sobre a outra mão fechada, o gesto universal para o “estamos fodidos”. Todos se lamentaram silenciosamente, daquele jeito que se diz: “puta que o pariu” sem abrir a boca. Até mesmo o seu Aroldo, quarenta anos de firma, que havia largado o vício por causa de um câncer no pulmão protestou em forma de uma tossidela violenta.

Passamos aquela semana desolados. Não conseguíamos nos concentrar no trabalho. O pessoal da contabilidade errava o dois mais dois, o do marketing queria trocar a propaganda do intervalo na novela das oito na globo pelo intervalo dos desenhos animados do SBT, e até mesmo a Marcinha, que cuidava do cafezinho, estava trocando o açúcar pelo sal. Não, não podíamos continuar assim, se não só restaria o caos.

Na noite de sexta resolvemos cancelar o futebol e realizar uma reunião. Todos concordaram. Iríamos entrar em greve. Enquanto não nos devolvessem o direito de intervalo para o cigarro, não trabalharíamos. Até mesmo o seu Aroldo, entre uma tossida e outra, prometeu ser o primeiro a empunhar uma placa em prol da nossa causa, coitado.

Na segunda feira o seu Lindomar se assustou quando nos viu invadir seu escritório, munidos de placas e protestos, exigindo nossos direitos. Confesso que senti até pena do homem, pois lia-se em seus olhos que estava a fazer as contas: indenizações, treinamento de novo pessoal. Não, não. Teria de se render. Seu Lindomar fez um gesto para que fizéssemos silêncio, e subiu na sua mesa para iniciar o discurso.

— Está bem, está bem, vocês venceram. Devolvo o direito do intervalo para o cigarro, mas como uma condição: parem de pegar os cigarros do depósito se não a Cigarros Lindomar LTDA vai à falência.

Todos tatearam os bolsos à procura de moedas e correram à tabacaria da esquina.